Um Estado moral não requer religião
Publicado em 04. abr, 2009 por Rev. Giuliano Coccaro em Boletim, Reflexão
“Um Estado moral não requer religião”, defendeu o jornal americano mais influente do mundo, The New York Times, em seu editorial no dia 16 março. O artigo do periódico estadunidense é construído sobre a pesquisa do sociólogo americano Phil Zuckerman, realizada em dois países escandinavos: Dinamarca e Suécia.
Ele diz que esses países contradizem a suposição de que, sem fé, a sociedade se torna “repleta de imoralidade, devassidão e mal”. Em lugar disso, Zuckerman encontrou uma sociedade nitidamente não religiosa e que, acima de tudo, é moral, estável e profundamente benevolente. Li na última quarta-feira (1º de Abril – e não é mentira!) que o Parlamento sueco aprovou a legalização do casamento homossexual, sétimo país no mundo a legislar a favor da união. Note, portanto, que a tese do sociólogo sobre a moralidade do Estado é extremamente tendenciosa, relativista e questionável.
Concordo com o autor em determinados pontos. A separação entre Igreja e Estado (estado laico = não religioso) é válida, necessária e, sobretudo, bíblica. Na epístola aos Romanos, por exemplo, o apóstolo Paulo defende reiteradas vezes que os magistrados civis são ministros (lit.diakonos) de Deus para o nosso bem (cf.13.4).
Jesus Cristo, por sua vez, reconheceu a autoridade do Governador romano Pôncio Pilatos em determinar a sua sentença de morte ou a sua soltura (Jo 19.11). Ou seja, o ideário triunfalista defensor de um Estado genuinamente religioso como solução para os abscessos da humanidade caracteriza-se num erro teológico e, principalmente, num grave desconhecimento histórico. A Idade Média provou durante mil anos que um Estado religioso não é sinônimo de justiça e moralidade, muito pelo contrário.
A questão chave do artigo, porém, é o preconceito velado por detrás das palavras do articulista. O autor não somente ataca a religião, mas também busca no ateísmo a total secularização que todo país, segundo ele, deve cultivar. Essa intentona ateísta configurada no laicismo-militante (deturpação da laicidade que respeito), contudo, cai no mesmo erro que condena: influenciar a sociedade com preceitos dogmáticos em nome de uma pseudoreligião.
O laicismo-militante é fanático como outros movimentos fundamentalistas, pois não alimenta o apreço pela liberdade. Quando o assunto é Deus, está fechado ao diálogo. Calar e ridicularizar a religião dentro do Estado são atitudes totalitárias. O laicismo se esquece que, embora laico, o Estado é democrático. Como cidadãos, temos o direito de falar e de sermos ouvidos, sem imitar, é claro, o radicalismo dos laicistas.
