Sem ossos no ofício: os esqueletos do senado e os nossos
Publicado em 29. mar, 2009 por Rev. Giuliano Coccaro em Boletim, Reflexão
Aí vai a pérola dos últimos dias: “Não sei por que agora resolveram tirar todos os esqueletos do armário”. (José Sarney, presidente do Senado após os sucessivos escândalos na Casa).
Eu também não sei. Essa limpeza pode ser conseqüência de um embate partidário, no qual os que se sentem traídos por acordos extra-oficiais quebrados retaliam governistas e oposicionistas com denúncias de fatos cochichados às escuras nos bastidores da Praça dos Três Poderes, mas trazidos aos palcos iluminados da sociedade por motivações meramente políticas. Ou pode até ser, sendo exageradamente otimista, decorrente de uma atitude puramente moralizadora de um bom samaritano que acredita no Brasil e na integridade dessa instituição, pois, devo concordar, não pode ser enxovalhada por alguns frutos podres. De forma sincera declaro: ainda acredito em políticos assim.
Esses esqueletos a que se refere o presidente do Senado, têm carne, nome, endereço e até partido político. Não são nada fantasmagóricos. A princípio, eram 136. Depois veio a confissão: 181 diretores responsáveis pelo assessoramento de 81 senadores. Uma média de mais de dois diretores por senador. Na verdade, esqueletos ou fantasmas, chame-os como quiser, são os 3,8 mil funcionários que receberam do Senado R$ 6,2 milhões em horas extras em pleno recesso de janeiro, com os gabinetes, plenários e corredores às moscas. A faxina dos esqueletos no armário do Senado Federal, porém, não parou por aí. Entrou na Operação Amélia: uma mansão não declarada, um apartamento funcional cedido indevidamente e uma viagem paga a amigos, igualmente financiada com os seus impostos. Ufa! Esse armário mais parece um cemitério, daqueles bem chiques: ornamentado de mármore, coroa de flores, utensílios de ouro puro e imponentes estátuas angelicais, embora sirvam para atenuar uma realidade inequívoca escondida sob as catacumbas: podridão e mau-cheiro.
Há mais de dois mil anos Jesus preconizou a existência desses túmulos humanos. Ele usou metaforicamente a palavra ‘sepulcro’ para descrever a essência de alguns homens, sobretudo religiosos. Ele os chamou de “sepulcros bonitos, enfeitados”. Tinham aparência de piedade, mas eram perversos, hipócritas, gananciosos e fétidos. Possuíam a boca no céu e o coração no inferno. O Evangelho, por sua vez, é um convite para uma mudança prefaciada na alma humana. É uma restauração de dentro pra fora. É o chamado para escancarar as portas do seu armário e lançar fora da sua vida os esqueletos que insistem em assombrá-lo e afastá-lo da real intimidade com Deus.
