Religião Rabugenta
Publicado em 21. mar, 2009 por Rev. Giuliano Coccaro em Boletim, Reflexão
Nunca havia presenciado tantas manifestações contrárias, quer nos meios de comunicação de massa ou nos bate-papos informais, aos atuais posicionamentos da igreja católica no Brasil. A comoção nacional no maior país católico do mundo teve como ponto de partida a decisão do arcebispo de Olinda e Recife Dom José Cardoso Sobrinho de excomungar todos os envolvidos no aborto da menina pernambucana grávida de gêmeos no dia 4 de março.
A criança de apenas nove anos (1,36 m e 33 quilos), mas que desde os seis era abusada pelo padrasto, pôde voluntariamente interromper a gestação com autorização da justiça, já que o caso dela se arvorava em duas exceções permitidas pela lei brasileira: risco de morte da mãe e estupro. Após os procedimentos, a equipe médica e a mãe da menina foram sumariamente excomungadas pela igreja. Além disso, um advogado da Arquidiocese, Márcio Miranda, anunciou que vai apresentar uma denúncia de homicídio contra a mãe da vítima por ter autorizado o aborto.
Não quero aqui, por óbvios motivos de espaço, entrar nos embates teológicos que emergem de uma questão cercada por opiniões científicas e doutrinárias conflitantes, e, além de tudo, extremamente complexas. Apesar do posicionamento oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil que já se pronunciou contra a legalização do aborto, com exceção do aborto terapêutico, quando não houver outro meio de salvar a vida da gestante. O que pretendo mostrar, porém, é o tratamento descabido dado à situação. Uma família humilde, uma criança obrigada a torna-se mulher prematuramente, danos físicos, psicológicos e uma atitude contraproducente do clero marcada por ameaças, repreensões e processos judiciais. A religião rabugenta pode ser qualquer uma que tenha posturas inconvenientes e retrógradas de seus fiéis. Por isso, muito cuidado com os pit-bulls religiosos. Eles estão por toda a parte e em todas as religiões.
A religião rabugenta é aquela que faz ressurgir dos porões sujos da Idade Média furiosos ratos inquisitoriais que dilaceram impiedosamente os ignorantes, indefesos e diferentes, tudo em nome de Deus. A religião rabugenta inverte papéis, colocando na boca de Deus o que está nos códigos (ou nos compêndios teológicos) da igreja. A religião rabugenta erra ao não entender a sua função dentro de um Estado laico e democrático. Ela precisa, ao invés de simplesmente invocar a vontade divina, traduzir racionalmente suas preocupações em valores universais acessíveis a religiosos e ateus. A religião rabugenta é antipática e fria. Ela fere com fins terapêuticos, mas não promove a cura porque o faz sem a sensibilidade de um pai amoroso. A frieza da lei impede-a de conduzir o réu ao caminho da restauração. A religião rabugenta côa a agulha e engole o camelo. É voraz com alguns e leniente para com outros, pois hierarquizou à revelia do Legislador os “pecadinhos” e “pecadões” da humanidade. A religião rabugenta prefere as pedras à declaração de Jesus: “Vai e não peques mais”. Dá chilique na mídia, mas não chora a dor dos desvalidos. A religião rabugenta, por fim, tem prestado um grande serviço para o crescimento do ateísmo no mundo.
Eu, contudo, quero uma igreja inteligente e corajosa, disciplinadora, apegada à verdade, que não negocia princípios e que rejeita qualquer unidade alicerçada sobre bases plurais de verdades relativas. No entanto, quero igualmente uma igreja acolhedora, arrojada, influente, tão moderna quanto bíblica, simpática à sociedade e que, principalmente, seja douta na arte de chorar com os que choram.
