Chega o carnaval: quebre as máscaras e rasgue as fantasias

Chega o carnaval: quebre as máscaras e rasgue as fantasias

Publicado em 22. fev, 2009 por Rev. Giuliano Coccaro em Boletim, Reflexão

A julgar pela diversidade de explicações históricas e etimológicas, prefiro pensar no significado do carnaval apenas sob a minha ótica. Eu não sei o que significa para você. Para mim, a festa se interpreta em seu próprio figurino: fantasias e máscaras.

Sem hipocrisia: a brava gente brasileira tem o direito de sorrir um pouco. Negar-lhe este direito é privá-la de sua característica indelével. Afinal, o povo brasileiro é mundialmente conhecido pela simpatia irreverente de suas festas dentro ou fora de época (Que o diga o ofensivo nudismo dos turistas alemães).

Apesar da marca distinta de nosso sorriso, o carnaval, especificamente, chega a cada ano e, com ele, a tristeza do palhaço que vê o circo pegar fogo. Chega o carnaval dos destaques eróticos das escolas de samba, dos multiplicados acidentes de trânsito decorrentes do álcool, do uso quase descriminalizado das drogas legais e ilegais. Chega o carnaval e, na mesma proporção, chegam os óbitos.

O carnaval, diga-se de passagem, é um lapso temporal de esquecimento na fortuita memória de nosso povo. Injustiças são esquecidas, a crise é milagrosamente transmutada em “marolinha”, o povo temporariamente fecha os olhos diante dos grandes castelos, provavelmente construídos sob o dinheiro dos foliões. Cássio Cunha Lima, Edmar Moreira… Quem são? Intérpretes de alguma escola?

Lembro-me da semelhança, senão igual, com a política romana do pão e circo. Coliseu romano, distribuição gratuita de comida e muita diversão à custa dos gladiadores. Resultado: população carente esquecida dos problemas da vida e diminuição das chances de revolta. Havia ali, portanto, um povo mansamente feliz! Pensam os grandes: para que impedir tantas desgraças se o leve torpor dos de baixo é fôlego de vida (ou morte) para os de cima?

Voltando à tristeza do palhaço. Chega o carnaval inebriante, alienável, de paixões efêmeras, que rapidamente perde o significado na quarta-feira de cinza. Chega o carnaval das fantasias que disfarçam de luxo a indigência do povo. É a desesperança mascarada com serpentina e a solidão encharcada de cerveja. Chega o carnaval e a evidência do vazio. A tentativa de se encontrar na carne algo que satisfaça. O carnaval é a apoteose das fantasias e máscaras que escondem o homem de si mesmo durante o ano todo. É mais um esconderijo da alma desesperada. Quebre as máscaras, rasgue as fantasias. Não se esconda atrás de falsas alegrias para não ser conhecido o seu choro. Você tem um vazio do tamanho de Deus. Só Ele pode preenchê-lo. Chore, pois Deus quer fazê-lo feliz.

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