Assim sempre com os tiranos
Publicado em 08. mar, 2009 por Rev. Giuliano Coccaro em Boletim, Reflexão
Tirania é o uso abusivo da força e da autoridade a serviço do poder subversivo. Uma amostra contemporânea desse mal milenar é visualizada abertamente na caricata figura do presidente venezuelano Hugo Cháves. O tutelado de Fidel manipula e incita seus companheiros a demonizarem a oposição, cerceia a liberdade de expressão, amordaça a imprensa conflitante, abafa quaisquer manifestações políticas divergentes e paulatinamente fere mortalmente a democracia do país, se é que esta já não foi velada e enterrada.
Outro triste exemplo em pleno século 21 é o do presidente sudanês Omar al-Bashir, que já carrega em sua extensa ficha criminal a morte de 300 mil africanos decorrente do conflito étnico-político em Darfur. É o despotismo a serviço de uma barbárie com contornos medievais, cujas atrocidades praticadas abrem mais chagas numa região atormentada por flagelos sem fim.
A tirania me assusta. Mesmo que pintada sobre diferentes molduras. Não fui contemporâneo do regime ditatorial que se instalou no Brasil. O pouco que sei, porém, me leva a rejeitar veementemente a expressão usada pelo jornal Folha de SP em seu editorial do último dia 17. O autor da peripécia afirma que a ditadura no país – se comparada com os desfechos da política totalitária do governo venezuelano – é uma “ditabranda”.
Não vejo muita diferença entre a tirania de esquerda ou de direita. Ambas são tirânicas, malévolas, desrespeitosas e prejudiciais à dignidade humana. Matança consumada por latifundiários ou pelo MST, por exemplo, deve ser proporcionalmente reprovável.
Ironicamente, com um tiro na nunca, o homem que tanto lutou pelo fim da tirania elitista branca sobre os negros nos EUA, sucumbiu sob a acusação de ser um déspota sem escrúpulos. Felizmente, o presidente americano Abraham Lincoln não teve tempo de ouvir o ator escravista Jonh Wilkes Booth gritar, dias após a derrota dos estados confederados na Guerra Civil Americana: “Assim sempre com os tiranos”. Dizem que a frase foi emprestada de Brutus, a figura mais famosa no assassinato do imperador Julio César na tragédia escrita por Shakespeare. Ou foi apenas uma simples reprodução do lema que circunda o brasão do Estado da Virgínia, um dos confederados derrotados.
Deixando, porém, Chaves, Julio César e o ator assassino de lado, pensemos em nós mesmos. Com raras exceções, a verdade é: o ser humano gosta do poder. Somos tentados a impor nossas opiniões, aceitamos indigestamente admitir os nossos erros (quando os admitimos, é claro), queremos levar vantagem em tudo, temos predileção por mandar e não sabemos lidar com o oposto.
Não é por menos que Satanás ludibriou nossos primeiros pais com a frase: sereis como Deus. Também somos propensos à tirania: ao egocentrismo que usa o poder coercitivo em benefício próprio e à soberba de barbáries ocultas. Mas a história tem ensinado dos velhos impérios ao novo imperialismo: tiranos se levantam e Deus os abate. Assim sempre com os tiranos.
