A teologia da prosperidade, o totalitarismo e o “happy end”

A teologia da prosperidade, o totalitarismo e o “happy end”

Publicado em 12. set, 2009 por Rev. Giuliano Coccaro em Boletim, Finanças, Reflexão, Ética

Primeiramente, vamos às explicações. Teologia da prosperidade é uma corrente interpretativa defensora do sucesso financeiro como indicativo determinante do tamanho da fé do crente. Quanto maior a confiança dele em Deus, menores e menos pesados lhe serão os problemas.

No totalitarismo nazista e no regime soviético havia elementos ideológicos que os emparelhava. O planejamento e a determinação de se construir uma nova sociedade – e, consequentemente, uma nova criatura antropológica – foram as principais bandeiras dos dois movimentos. O que diferenciava tais modelos tirânicos era simplesmente a metodologia utilizada para justificar seus próprios fins de ‘higienização’ da espécie humana. Para os primeiros, a fundamentação cientifica do evolucionismo darwiniano subvencionou a teoria racial de que certas etnias são superiores a outras, daí a legitimidade do extermínio, do holocausto, da carnificina deliberada pela lei do mais forte, tudo com o aval científico. Já no outro, a ciência social assume o controle e enxerga num específico modelo sócio-econômico a estrutura adequada para a implantação de um mundo igualitário, sem as injustiças sistêmicas de outros modelos.

Por volta dos anos 30/40, primeiramente no cinema americano, surgiu a cultura dos “happy end” (final feliz). A introdução em massa do “happy end” rompe com a tradição milenar, proveniente da tragédia grega. Antes, os heróis eram mais trágicos, apaziguavam, com seu sacrifício, a maldição ou a cólera do destino. Havia o castigo dos maus, porém sempre acompanhado do sacrifício dos inocentes. No final feliz, contudo, o herói parece invulnerável à morte. O filme, ou novela, inequivocadamente termina com uma eterna primavera regada a amor perfeito, poder, glória e dinheiro. A felicidade consumista como satisfação de todos os desejos.

Dado os devidos esclarecimentos, você deve estar se perguntando o que essa teologia odiosa, os regimes totalitários e os ‘finais felizes’ têm em comum. Ambos excluem de seu pensamento a inevitabilidade do sofrimento e pregam a viabilidade da instauração de um reino aprazível e plenamente feliz na terra, um verdadeiro “mar de rosas”, obviamente sem a ingrata presença dos espinhos que as acompanha. Trazem receitas infalíveis de fé ou de fogo para o abrandamento ou eliminação das tragédias. Assim, inaugura-se no imaginário de cada um a ditadura da felicidade terrena. O que gera infelicidade e frustração, pois se delineia um quadro irreal e inalcançável borrado pela utopia da felicidade materialista sem Deus e sem angústias.

A Bíblia traz a visão do sofrimento e da felicidade que mais faz justiça à realidade dos homens. Jesus declarou: no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo. As aflições existem, os finais felizes, nem sempre. Contudo, é possível superá-las e desfrutar de profunda felicidade ainda que cercado por densas nuvens de escuridão.

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