A propósito do Dia de Tiradentes

A propósito do Dia de Tiradentes

Publicado em 02. mai, 2009 por Rev. Giuliano Coccaro em Boletim, Reflexão

“Feliz o povo que não tem heróis” – frase atribuída ao dramaturgo e poeta , além de marxista convicto e ferrenho opositor do regime nazista, Bertolt Brecht. A frase, por sua vez, torna-se um contrassenso num mundo em que personalidades são heroicizadas aos montões. Há quem diga que precisamos de heróis. Que são necessários para sustentação da esperança. Se essa busca, inerente ao homem, de figuras quase divinizadas realmente procede, não se sabe. Mas é inegável o fato de que há em grande escala a comercialização e o consumo de heróis. A mídia, por exemplo, é pródiga na arte de levantar heróis e hábil no poder de transformá-los em vilões.

Depositar a confiança em heróis é perigoso. Eles, mesmo os ‘semideuses’ da mitologia grega, também são seres-humanos: mortais, limitados e efêmeros. Por isso, heróis decepcionam, pois são falhos e podem ser vencidos. Até a figura pitoresca do herói das histórias em quadrinho, o Super-Homem, morreu. Perdeu a batalha para o lucro. Em uma de suas canções, Cazuza reconheceu que seus heróis não corresponderam às suas expectativas, “morreram de overdose” e feriram de morte as suas ideologias. Viveu e morreu em busca de alguma que o satisfizesse, aparentemente sem sucesso. Infelizmente.

Olhando para os heróis da moda, a decepção chegou na mesma proporção e com a mesma rapidez de suas ascensões meteóricas e aclamadas. Conseqüentemente, ideologias ruíram juntamente com a certeza de um futuro melhor. A plataforma sobre a qual o mote eleitoral de Barack Obama se sustentou “a esperança que venceu o medo” já tem apresentado fissuras preocupantes. Tomara que o medo não vença a esperança.

Ainda no âmbito internacional, é importante destacar o ex-bispo católico Fernando Lugo, presidente do Paraguai, cuja ética balizada por parâmetros religiosos serviu como mola propulsora à sua vitória esquerdista. Sua moral, porém, assim como sua forte liderança, estão machucadas pelos sucessivos escândalos de envolvimentos amorosos quando ainda usava batina. Nos limites nacionais, confiava-se em Jackson Lago, o nome da reconstrução do estado do Maranhão, eleito para chefiar a região que, vergonhosamente e por má vontade política, conta com o segundo pior índice de desenvolvimento humano do Brasil, perdendo apenas para Alagoas. No afã de romper os laços que amarravam os maranhenses por quase 50 anos à hegemonia da família Sarney, se valeu dos mesmos artifícios que condenava.

Até o deputado Gabeira, político respeitabilíssimo, assumiu arranhões em sua imagem gerados pelas garras dessa tal de cota de passagens aéreas. E agora? Sobrou Ronaldo, o fenômeno. Carrasco do meu tricolor. Herói nacional, pelo menos até os últimos resultados do paulistão.

A lição que aprendo é: não preciso de heróis. Principalmente os fabricados. Eles nascem e morrem. Necessito de muito mais. Se Brecht diz: Feliz o povo que não tem heróis, o salmista declara: Feliz a nação cujo Deus é o Senhor (Sl 33.12).

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