Quando a culpa pela imagem é do espelho
Publicado em 05. jul, 2009 por Rev. Giuliano Coccaro em Boletim, Ética
À medida que se iluminam os porões do Senado mais lama se encontra ali acumulada. Os culpados pela sujeira no Legislativo, porém, teimam em não aparecer. O chefe da Casa, por exemplo, já se adiantou e responsabilizou o Senado pela sua desmoralização, o que não está de todo errado. Agaciel Maia, ex-diretor-geral do Senado, sobre o aumento da verba indenizatória em 2005 não ter sido publicado à época afirmou: “Se não colocou na rede, a responsabilidade não é minha”. O vice-presidente em 2005, Senador Tião Viana, sobre o mesmo assunto, se defendeu com semelhante argumento evasivo: “Se alguém fez isso, a culpa não é minha”.
É aquele conhecido conto da carochinha relido sempre que escândalos afetam o alto escalão do poder público, usado como mantra no caso do mensalão: eu não sabia de nada, o culpado não sou eu… Ou, conforme Sartre, o inferno são os outros. A velha tentação da pessoa investida de poder de culpar o espelho pela imagem que ele mostra.
O que tem me preocupado profundamente são os mais variados argumentos utilizados na tentativa de se justificar o injustificável ou, numa linguagem mais popular, de tapar o sol com a peneira. A tese do espelho como principal vilão pela imagem distorcida é um subterfúgio universal. O líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o da Venezuela, Hugo Chaves, o presidente Lula e o seu aliado Sarney, apenas para citar alguns, têm feito isso com admirável destreza.
Acusam a imprensa de ser a engrenagem de acusações infundadas contra o governo, ou, conforme denominação do líder de nosso país, de denuncismo. São meras vítimas da “campanha midiática”. Um artifício retórico antigo, adotado por governos totalitários ao redor do mundo para rechaçar denúncias bem fundamentadas veiculadas na mídia. A maneira mais eficaz de abafar problemas internos é elegendo terroristas externos.
Fico com a sensação ruim de que nossos líderes procuram descaracterizar o quadro óbvio de corrupção desenfreada em nome da camaradagem político-eleitoral. Arruma-se, portanto, um bode expiatório a fim de ocultar as raposas. Não importa que seja ladrão, desde que seja meu companheiro. É a clara apologia à impunidade e ao obscurantismo.
Culpar o outro pelos erros cometidos é tão antigo quanto a própria criação do ser humano. Segundo a Bíblia, quando confrontados pela desobediência lá no Éden, homem e mulher tentaram se eximir de qualquer responsabilidade pela queda. A culpa é da mulher, isentou-se Adão. A serpente é a culpada, defendeu-se Eva. A história não é cíclica, mas vem se repetindo no decorrer dos milênios. Seja na frágil relação em torno do poder ou nos relacionamentos interpessoais, a tendência é sempre culpar o espelho pela imagem refletida.
